quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A CEGUEIRA DA VINGANÇA por Pilar Rahola

Nos tribunais do Irã, uma mulher vale a metade de um homem. Ela só pode pedir para cegá-lo de um olho. Mas se pagar 20.000 euros, pode executar a sentença por completo. "Muitas até querem pagar", diz Ameneh.
“Olho por olho e o mundo ficará cego", digo-lhe, recordando a mítica frase de Gandhi. E ela me responde calmamente, olhando-me desde a opacidade das lentes de seus óculos inúteis: "De acordo, os dois cegos". Tenho-a diante, sua jovem vida destroçada para sempre, sua beleza de antigamente, arrancada com ácido, suas esperanças de universitária brilhante, quebradas na obsessão de um enamorado enlouquecido. Olha-me e, sem me ver, vê minha incompreensão, minha distância apesar de minha solidariedade, minha incredulidade. E então me espeta, tirando os óculos que escondem o vazio imenso de sua cegueira: "Se isto é o que ele me fez, poderia ter feito à sua filha e, nesse caso não teria vontade de arrancar-lhe os olhos? Retirar seus olhos", diz ela num incipiente castelhano que fala.
E então continua assegurando que não quer vingança, que as cinco gotas de ácido em cada olho, seriam como um castigo contra o agressor, para que nunca volte a fazer o mesmo a outra jovem, uma vez que no Irã os agressores de mulheres estão muito poucos na prisão, que a única sentença definitiva é a que pediu. "Não vingança", repete, e ensina: as queimaduras do corpo, o único olho de cristal, a outra órbita desaparecida, no buraco negro de sua dor. No tablado da TV3, onde fazemos a entrevista, reina um pesado silêncio. O que devem pensar meus companheiros? Porque nessa sala, escutando a serenidade de Ameneh Bahrami enquanto relata sua petição, tudo parece ter sentido. Se a lei do talião serve para evitar um mal maior, por que não deixá-lo cego? E então conhecemos mais detalhes, os quais mais brutais. Nos tribunais do Irã, uma mulher vale a metade de um homem. Ela só pode pedir para cegá-lo de um olho. Mas se pagar 20.000 euros, pode executar a sentença por completo. "Muitos querem pagar", diz Ameneh, mas não fará falta, porque finalmente o juiz foi muito compreensivo com sua petição e permitirá a execução completa. Se não permitem a ela jogar o ácido ("eu posso, tapando seus olhos, posso"), o fará qualquer voluntário dos muitos que se apresentaram. A família de Majad Moyahedi ofereceu dinheiro a Ameneh para salvar, no mínimo, um olho do agressor, mas ela se mantém inflexível. "Dinheiro não. Retirar os dois olhos". E assim, se nada impedir, em breve será executada a sentença que em 26 de novembro passado determinou o juiz Aziz Mohamandi, na seção 71 do Juizado Penal de Teerã. Antes de receber as gotas de ácido em cada olho, o homem será anestesiado. "Eu não tive essa sorte", acrescenta Ameneh.
Se a palavra tivesse capacidade de mostrar os silêncios, este seria um deles. Respiro e calo. E lentamente vai fluindo uma tentativa de reflexão. A lei do talião bíblico, que inspira a sentença validada pelo tribunal iraniano, não nasceu com este objetivo. Muito pelo contrário, apesar de sua má fama, o olho por olho implicava um prematuro desejo de proporcionalidade, uma vontade inequívoca de acabar com a lei da selva. Se roubou, não o mates, se te tirou um olho, não lhe tire os dois, e assim, por diante, até a lei moderna. Aplicado há mais de dois mil anos, sua finalidade era a justiça. Aplicado em pleno século XXI, sua única finalidade é a vingança. Ou seja, a lei do talião bíblico era civilizada. A que atualmente é aplicada em alguns países islâmicos é bárbara.
Mais além da necessária compreensão com a dor de Ameneh, a chave está em sua dor decida o castigo. Quer dizer, que a vítima seja quem exerça a justiça porque então se acaba o império da lei. O problema, é claro, não está no desejo de Ameneh Bahrami de cegar o agressor, mas numa sociedade enferma que cria as condições para chegar, finalmente, a este brutal resultado: discrimina a mulher, até reduzi-la à metade do valor de um homem; cria milhares de leis que a escravizam; inspira no homem uma convicção inequívoca de poder e prepotência, e quando finalmente se produz uma agressão, permite, sem depuração, a aplicação de um princípio arcaico. O ódio contra o ódio, o ácido contra o ácido, e pelo caminho da vingança, a negação definitiva da civilização. Ameneh não tem olhos. Mas é o Irã que está cego.











* Pilar Rahola é conhecida jornalista, escritora e tem programa na televisão espanhola. Foi vice-prefeita de Barcelona, deputada no Parlamento Europeu e deputada no Parlamento espanhol. Publicado no jornal La Vanguardia (Barcelona), dia 8/3/2009.. Tradução: Szyja Lorber.

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